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Na linha de frente

Medo, cansaço, tensão se contrapõem à gratidão de poder ver um paciente curado


Aplaudidos como heróis no país inteiro, eles sabem que para vencer esta luta contra o inimigo

invisível ainda será necessário muito trabalho. Sabem também que o profissional de saúde é apenas um dos protagonistas neste cenário, mas defendem que uma população consciente e solidária é a principal arma de enfrentamento contra a pandemia.


O Jornal da Suprema foi ouvir egressos da faculdade que estão na linha de frente da Covid- 19. Jovens profissionais que se viram, de repente, diante de uma pandemia sem precedentes. Conheça um pouco mais da rotina, dos sentimentos e do que esperam do futuro o Arthur, a Elen, o Igor, o Victor e a Juliana...



Arthur Magalhães Mattos

27 anos

Formado em Farmácia na Suprema, em dezembro de 2018. Em 2019, ingressou no programa de residência multiprofissional do Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus. Mora em Juiz de Fora (MG)

Desafio na pandemia

O maior desafio é estar em alerta o tempo todo, durante o trabalho e fora dele, para não se contaminar e não disseminar o vírus.

Medo

Acho que é normal sentir medo, pois é natural do ser humano ter medo do desconhecido. No meu caso tenho mais medo por minha família. Cada retorno para casa é um risco para eles, mesmo com todos os cuidados sendo tomados.

Relações sociais

(A pandemia) interfere bastante. Além dos meus colegas de trabalho, só tenho contato com a minha família que mora junto comigo.

Gratidão/Recompensa

Com certeza é ver um paciente recuperado podendo voltar para sua família.

Situação inusitada

A situação mais inusitada que vivenciei foi ter testado positivo para Covid-19 e ter que ficar isolado dentro do meu quarto, sem contato com ninguém. Mas felizmente tive apenas sintomas leves como dor de cabeça e perda do paladar. Contudo já estou recuperado e atuando novamente na linha de frente.

Novo normal

As lições que ficam com essa pandemia são a importância do coletivo e de como até nossas menores ações afetam diretamente outras pessoas. Então, vamos nos esforçar para que seja de uma maneira positiva.



Igor Henrique Silva Leite

27 anos

Graduado em Medicina pela Suprema Juiz de Fora em 2018. Atualmente, residente do segundo ano de Residência em Clínica Médica no Hospital Santa Marcelina, na cidade de São Paulo (SP). Mora em São Paulo.

Desafio

O maior desafio neste período de pandemia é encarar uma doença desconhecida, com grande comoção mundial e contagiosa, e ter que lidar com ela na linha de frente, com suas consequências físicas e emocionais, já que a rotina nos hospitais mudou. Os enfermos ficam em alas separadas, não podem receber visitas dos seus familiares. Lemos cartas e mostramos fotos a eles vindas das famílias para tentarmos amenizar a dor dos internados. Passamos muitas horas paramentados, com todos os EPI’s necessários, tornando a rotina das UTI’s mais estressante. Além disso, é um longo tempo de internação quando há piora dos pacientes, com períodos longos de intubação, sendo necessárias, por diversas vezes, manobras e tratamentos que necessitam de maior atenção. Cito como exemplo, a realização do que chamamos de “pronar” o paciente, que é uma manobra considerada de resgate em pacientes graves do ponto de vista respiratório, e, em tempos anteriores, não nos deparávamos tanto com essa situação, o que abala bastante os familiares e também a nós, profissionais de saúde.

Medo

Tive receio, principalmente no início, e sempre muito respeito pela doença, por ser uma doença desconhecida, nova para todos nós e com poucos estudos relevantes. Mas, com o tempo, fui adquirindo experiência, tranquilidade e serenidade para enfrentar o problema. Somos uma equipe de profissionais capacitados e bem treinados, além de ter uma estrutura hospitalar bem montada, o que me passa bastante confiança e segurança.

Relações sociais

Estou há vários meses sem ver meus familiares, sem abraçar, sem poder visitar minha família toda. Isso influencia no nosso emocional. A gente fica mais abalado emocionalmente. Apesar de utilizarmos a tecnologia para tentar amenizar a saudade, nada substitui um abraço e os encontros pessoais que são realizados, principalmente minha família, que tem a característica de ser muito unida, não importa a distância.

Gratidão/Recompensa

A maior recompensa é saber que posso, através dos meus conhecimentos, ajudar ao próximo, contribuindo para que cada família se alegre ao receber a notícia da alta de um ente querido. Agradeço a Deus por tudo que tenho e pela dádiva de poder tratar pessoas necessitadas. O que dá força para gente é isso, paciente reencontrando a família, após longo tempo de internação, uma palavra de agradecimento e carinho e a felicidade no rosto das pessoas. Cada alta é diferente, é uma vitória para toda a equipe. É gratificante ver o paciente junto com os seus familiares e saber que fiz parte disso.

Situação Inusitada

Duas das situações inusitadas foram as altas dos pacientes 1000 e 2000, momento tão importante quanto os outros, mas são números emblemáticos. Por isto, ocorreu uma comemoração diferente no hospital, com alegria e o sentimento de mais uma vitória.

Novo Normal

Certamente, viveremos um novo normal. Acho que o ser humano tem a obrigação de sair melhor em todos os sentidos, após tudo isso, valorizando mais as pequenas coisas. A grande lição é valorizar mais a família, o contato, o abraço, o carinho. Acho que valorizaremos mais o presente, mas é claro que não deixaremos de nos programar para o futuro. Além disso, ter compaixão pelo próximo e agradecer todos os dias pela nossa vida. Vivenciaremos, também, estudos revolucionários em todos os âmbitos, mas acredito que, principalmente, na área intensivista em relação à ventilação mecânica e outros aspectos. Isso tudo é, sem dúvida, uma grande lição de vida para todos nós e, também, servirá para nos atentar para o fato de valorizarmos muito mais a liberdade que tínhamos antes de tudo isso.



Victor Bernardes Stoduto

22 anos

Formado em Odontologia pela Suprema em 2019. Durante o curso, foi monitor de Dentística e fez aperfeiçoamento em Cirurgia Oral Menor. Atualmente, trabalha em Juiz de Fora (MG).

Desafio

Na clínica onde trabalho são 12 consultórios e 24 dentistas, então existem vários desafios. O principal deles foi adequar às novas diretrizes de biossegurança no período de pandemia. Tais como marcação de pacientes com maior intervalo e sem aglomerações na recepção, uso de novos EPI’s e maior controle na central de esterilização. Tudo isso para preservar a integridade física dos profissionais e dos pacientes. Outro desafio foi o aumento do numero de urgências, que sobrecarregou muito, devido ao fato da nossa clínica ter o plantão 24h funcionando. Muitos profissionais e clínicas não estão trabalhando nesse período e nos encaminham seus pacientes.

Medo

Apesar de eu não ser grupo de risco, tenho receio em contrair a Covid-19 devido ao fato de estar na “linha de frente” e bastante exposto. É uma doença nova, que está sendo estudada agora e, mesmo que a maioria das pessoas com meu perfil sejam assintomáticos ou com sintomas leves, aparecem quadros graves do vírus também. Então, não tem como saber como vou reagir caso eu seja contaminado.

Relações Sociais

Com toda certeza, tudo mudou muito. Minha família e a grande maioria dos meus amigos residem em Ubá. São várias pessoas que são grupo de risco, portanto, desde o início dos meus trabalhos nessa pandemia me isolei deles, o que é muito difícil, pois sempre fomos muito unidos. A gente se fala diariamente por redes sociais, tentamos nos adaptar da melhor maneira possível, mas confesso que é bem difícil. Já minha namorada, trabalha na mesma clínica que eu, na “linha de frente” também. Então, com todos os cuidados recomendados, estamos juntos quase todos os dias.

Gratidão/Recompensa

Sinto-me muito grato por estar nesta posição logo no início da minha carreira profissional. Tem sido engrandecedor atender à população que necessita de cuidados e, por muitas vezes, não conseguem com outros profissionais, pois estes não estão trabalhando por diversos motivos. É bastante gratificante também pelo fato de que estou “substituindo” esses profissionais, não desamparando, assim, seus pacientes. O aprendizado também é uma recompensa enorme, tenho atendido casos difíceis nas urgências, tudo muito diverso, inusitado, então foi de grande valor pra mim.

Situação Inusitada

Não sei se a palavra é inusitada, mas o que me chamou muito a atenção foi a quantidade de casos de pacientes com dores orofaciais, principalmente com DTM. Acredito que devido ao estresse, incertezas, problemas econômicos e sociais que essa pandemia vem causando na população.

Novo Normal

Existe um lado positivo da pandemia para a Odontologia, que é a questão da biossegurança. No meu ponto de vista, sempre foi uma fragilidade de muitos profissionais da área. Talvez, os novos hábitos ou boa parte deles, permaneçam, mesmo com o fim da pandemia, levando uma maior segurança tanto para o paciente quanto para o profissional.



Elen Penoni Gomes

23 anos

Fisioterapeuta. Formada em Fisioterapia na Suprema em 2019. Atualmente, faz parte do Programa de Residência Multiprofi ssional no Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus (HMTJ) em Terapia Intensiva Urgência/ Emergência. Mora em Juiz de Fora (MG)

Desafio

Comecei a residência no dia 3 de março e dias depois, por volta do dia 15, começaram a surgiu os primeiros casos de coronavírus. Eu estava apenas há duas semanas no hospital. Particularmente, não acreditava muito que iria atender estes pacientes, que não iria chegar para nós. Mas tudo foi tomando uma proporção muito grande e o hospital precisou abrir leitos de enfermaria e de UTI para a Covid-19. Trabalhamos muito para adequar o atendimento aos pacientes, fazer o manejo e a paramentação. A gente correu contra o tempo. Trabalhamos exaustivamente para atender a todos da melhor maneira possível.

Medo

Nesta época, logo que começaram os primeiros casos, eu tive muito medo, porque a gente estava lidando com o desconhecido. Mas, agora, já respiro aliviada, não sinto mais o medo de antes.

Relações Sociais

A pandemia interferiu e continua interferindo muito até hoje no meu relacionamento social. A gente que trabalha na área da saúde, dentro dos hospitais, acontece até mesmo um preconceito.

As pessoas evitam ficar perto. Mês retrasado apresentei sintomas, contraí a doença e fiz a quarentena. Fiquei afastada da minha família e dos amigos. Desde então não voltamos a ter vida normal. Acho que nem vamos voltar a ter vida normal tão cedo. O preconceito ainda existe e é uma forma de preservar as pessoas também. Agora, depois da doença, as coisas estão mais normalizadas, claro que com todos os cuidados. Mas evito abraçar, ter contato físico, ficar perto, porque estou em contato todos os dias com os pacientes.

Gratidão/Recompensa

A maior recompensa da equipe é o sucesso do paciente. Do paciente se curando, melhorando dia após dia. Muitas vezes, a gente deixa de estar com a nossa família. Abdicamos do tempo de estar com as pessoas que a gente ama para cuidar destas pessoas. Sem dúvidas, esta é uma escolha que a gente fez e, neste momento o hospital e os pacientes precisam de nossa total dedicação. E ver que somos reconhecidos por isto é muito gratificante. Isto dá forças para continuar cuidando das pessoas, tomando todos os cuidados com a nossa saúde, com a saúde deles e com a saúde de quem amamos.

Situação Inusitada

Tenho a sensação de que venci o coronavirus, não precisei ficar hospitalizada. A sensação de ter vencido e ter saúde para continuar trabalhando para ajudar as pessoas, não tem nada que pague isto. Saúde é a coisa mais importante que temos na vida e poder cuidar da saúde das pessoas é também muito gratificante para mim.

Novo normal

Como eu disse, acho que isso não vai passar tão cedo. Teremos que nos acostumar com um novo

normal em tudo na nossa vida. Creio que o comportamento das pessoas em relação à higiene irá

mudar para melhor. Pelo menos é o que a gente espera, que as pessoas fiquem mais atentas para lavar as mãos e todas as medidas de prevenção. Quanto aos profissionais da saúde, creio que o nosso comportamento em relação ao uso dos EPI’s de forma correta, a lavagem das mãos

o tempo todo, vamos prestar mais atenção daqui para frente. Novos hábitos vão diminuir a incidência de muitas outras doenças. E, de certa forma, creio que esse novo normal está nos ensinando a valorizar as pequenas coisas que, às vezes, passam no nosso dia a dia tão corrido, como por exemplo, um abraço de alguém querido, a convivência dentro de casa, as visitas aos parentes, enfim, quando isso tudo passar nós vamos valorizar essas pequenas coisa.



Júlia Alves Fonseca

22 anos

Graduada em Enfermagem na Suprema em janeiro de 2020. Residente do Programa de Residência Multiprofissional do Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus.

Desafio

Comecei a residência em março e logo em abril começamos com o isolamento social e o aparecimento dos primeiros casos suspeitos em Juiz de Fora. Como parte da residência, tenho que ficar um tempo atuando na UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Antes de a pandemia começar, já era um desafio para mim, ser recém-formada e atuar em uma unidade de Urgência e Emergência. A pandemia tornou esse desafio ainda maior.

Medo

Tive medo no início, quando era tudo muito novo para todos nós. O serviço não estava preparado para receber os pacientes suspeitos e os profissionais não tinham orientações e protocolos de atendimento, foi um período bastante estressante. Nessa época, estudei muito sobre o novo coronavírus, participei dos treinamentos para a equipe de Enfermagem e juntos fomos nos adaptando à nova realidade. Os desafios são diários, mas os aprendizados também.

Relações Sociais

O mais difícil tem sido me manter afastada dos amigos e dos familiares, tendo contato apenas

com a minha família e os colegas de trabalho, mas entendo meu dever como cidadã e como enfermeira.

Gratidão/Recompensa

É muito gratificante quando, junto com a equipe, conseguimos estabilizar um paciente que chegou instável e mesmo com todas as limitações e tensões fizemos um bom trabalho.

Situação Inusitada

Logo no início da quarentena em Juiz de Fora, tivemos muitas pessoas procurando atendimento

com medo de estar contaminada com o coronavírus, mesmo sem sintomas. Um dia eu estava na triagem com uma colega residente e o paciente chegou queixando de falta de ar. Porém, os sinais vitais estavam estáveis e ele não tinha nenhum sinal clínico de desconforto respiratório. Comecei a questioná-lo sobre outros sintomas e outras causas de possível falta de ar. Até que, em determinado momento, ele me disse que havia feito um teste que viu em um grupo de whatsapp. No teste, a pessoa prendia o ar durante um tempo e soltava durante um determinado número de vezes. Após isso, se sentisse falta de ar, era porque estava infectado pela Covid-19. Na hora fiquei tão perplexa que acabei sendo um pouco brava demais com o rapaz. Expliquei o porquê de não acreditarmos em tudo da internet e orientei sobre o contágio e sintomas do coronavírus. Mas creio que devo ter sido muito incisiva mesmo. O paciente não quis nem ser atendido pelo médico. Minha amiga até hoje brinca comigo sobre essa situação.

Novo normal

Já estamos vivendo um novo normal, hoje já não saio de casa sem a máscara, sempre tenho álcool na bolsa, já acho cotidiano fila para entrarmos nos mercados e ao esbarrar com algum conhecido encostamos apenas os cotovelos. A necessidade faz com que a gente se acostume com a nova rotina, mesmo não sendo fácil. Às vezes me pego pensando se algum dia voltaremos a sair sem máscara, ir a shows e festas... Espero e acredito que sim! Tão logo, poderemos nos aglomerar novamente.



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